Cruzar Pandemias
(Artigo do Padre Jerónimo Nunes, respigado da revista “Boa Nova (pag.28/29) de Maio de 2021)

Na minha juventude Portugal sustentava 3 guerras. Metade dos jovens migrou para fugir às guerras. A outra metade teve de pegar nas armas e ir combater um inimigo que nunca nos atacou. Eu suei para entender este mundo e encontrar nele o meu lugar. Dava-me vontade de virar o mapa ao contrário criando espaço para os novos países pelo menos no papel, já que, no terreno, os povos eram combatidos. Acabei por migrar, não para ganhar dinheiro nem para fugir à guerra. Foi Paulo VI que me indicou o caminho do desenvolvimento dos povos e da economia que serve ao bem comum e não apenas a uns poucos. Acabei por meter-me no meio dos pobres para lhes levar Jesus Cristo e empoderá-los para abrirem o seu espaço neste mundo e no Outro.
A pandemia das guerras não foi vencida. Ela mudou tudo: o governo (democratizou-se), os jovens (foram todos para a escola) a família (mais pequena, quase sem filhos) a formação (a ciência substituiu as humanidades) a sociedade concentrou-se em grandes cidades amorfas.
No anos 90 passei duas semanas em corredorees de Bruxelas. O meu guia, um alemão muito sério, descobriu que eu era português e disse-me:”tu precisas de saber o que pensa o think tank da UE: no futuro a UE termina nos Pirinéus, no rio Pó e a norte da Grécia. Esses países do sul nunca atingirão o desenvolvimento dos países de centro norte. A UE não precisa deles”.
– Então o que esse tanque pensa de nós? Perguntei.
– O plano é compensar Portugal com florestas e turismo”.
Essa descoberta ajudou-me a ler os acontecimentos dos últimos 30 anos. O “Think Tank” conseguiu esvaziar as fronteiras com a Espanha. Não conseguiu plantar as sonhadas florestas por causa dos incendiários. Mas teve êxito nos sonhados hoteis à beira mar plantados e convenceu o mundo que as nossas cidades são as melhores do mundo para visitar e até viver.
Quando os foguetes começaram a estourar porque Madona já morava em Lisboa, pensávamos ter descoberto a mina de ouro.
Afinal a pandemia do turismo durou menos do que as guerras. Era só fogo de artifício. Afinal nós temos é lítio para retirar do interior os últimos resistentes e alimentar carros não poluentes dos grandes vencedores deste mundo. A nós basta-nos colocar todo o esforço nos bancos, nos areroportos e nos aviões em que a nossa riqueza vai voar, sumir pelo ralo e potenciar as mudanças climáticas.
Quando andávamos entretidos com esses sonhos papalvos caiu-nos em cima a pandemia do corona. É melhor chamar-lhe “sindemia” porque juntou tudo: saúde, economia, educação, família, futuro e encheu-nos de tristeza, solidão e medo.
Já paramos e vimos as tendências maioritárias do pós-pandemia: aumentar desigualdades, diminuir empregos, inchar plataformas e trabalho, diminuir a atenção às pessoas e excluir maiorias silenciosas (crianças, idosos e migrantes).
As tendências dominantes nunca fecharam todos os caminhos. Ainda há brechas, veredas, diferenças que valem a pena. Para mim que sou cristão e acredito no fogo do Espírito Santo que nunca se farta de queimar lixo e tenho toda a confiança no Cristo ressuscitado que atravessa paredes e faz brotar jardins no deserto, eu aposto em homens e mulheres de coração grande, artistas de um mundo melhor e mais fraterno, casa aberta para todos, mesmo os mais frágeis.
A minha bússula foi Paulo VI. A tua pode ser Francisco, o radical que lidera o mundo, toma as grandes decisões na oração, arrisca desmantelar estruturas apodrecidas e aponta caminos de futuro. Greta Thunberg é uma luzinha, a Laudato Si é um farol e a Frateli Tutti é aquele mapa virado às avessas donde brota a paz e o verdadeiro progresso. A vida depois desta “sindemia” será tão simples como as Bem-Aventuranças. Esperamos por ti neste Caminho.

